A tabuada continua
do mesmo jeito. E as crianças continuam precisando saber
quanto é 2x3, 7x8, 9x4. Mas não se usa mais o verbo decorar
nas escolas. A educação atual fala em memorizar a tabuada, mas
com a condição de que ela seja compreendida antes. Professores
inventam todo tipo de jogos, brincadeiras e materiais para
fazer os alunos entenderem o conceito da multiplicação e seu
uso no cotidiano.
Tudo é contextualizado, como pede o bom e velho
construtivismo. O conceito difundido pelo psicólogo Jean
Piaget nos anos 20 diz que o conhecimento é um processo de
criação e não de repetição. Na década de 90, os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs), do Ministério da Educação,
transformaram boa parte das idéias de Piaget - e de outros
educadores que pensavam de maneira semelhante - em
recomendações oficiais. Hoje, elas estão na maioria das
escolas particulares e públicas.
"Eu não decoro, eu somo", diz Isabela Mendonça Moreira, de
8 anos, ao falar da tabuada. Ela conversou com a reportagem no
fim de uma aula de matemática em que os alunos foram divididos
em grupos para trabalhar com o chamado material dourado. A
caixa de madeira - nada dourada - tem pequenos cubos também de
madeira que representam unidades; barras que representam
dezenas e quadrados, centenas.
A professora da Escola Carlitos, em Higienópolis, vai
pedindo aos alunos que dobrem várias vezes a quantidade de
unidades até que possam completar a tabuada do dois. "Virou
uma escadinha, com dois quadradinhos a mais a cada degrau",
percebe Rafaela Iskin, de 8 anos. No fim da aula, todo mundo
canta alto a tabuada.
"A tabuada tem de aparecer como se fosse uma produção das
crianças", diz a educadora da Universidade de São Paulo (USP),
Silvia Colello. Ela explica que, na educação atual, a tabuada
é o fim de um processo e não um pré-requisito para lidar com a
matemática. "O aluno vai resolvendo os problemas e, de tanto
usar, decora a tabuada. E, com o que sabe, deduz o resto."
No Colégio Santa Maria, na zona sul, que já teve um ensino
mais tradicional, hoje as crianças aprendem a tabuada com
álbuns de figurinhas. "Cada página tem um número igual de
figuras, eles vão percebendo que a tabuada faz parte da vida
deles", explica a orientadora da 1ª série, Maria Rita Moraes
Stellin.
O Santo Américo, que também não se declara construtivista,
ainda tem chamada oral. "Mas não vale nota", diz a supervisora
de matemática de 1ª a 4ª série, Priscila Montenegro Siqueira.
A cobrança existe, porém a professora também fala em
compreensão da tabuada. Ela usa artifícios como barras
coloridas, competições entre alunos e recentemente resolveu
pendurar, a cada dia, uma placa nela mesma com uma
multiplicação diferente. "Os alunos têm de me chamar por
6x8=48, por exemplo. No fim da semana, a maioria já registrou
os resultados."
Na Prima Escola Montessori, na Chácara Flora, as crianças
mais velhas podem até usar a calculadora, mas também se busca
entender da tabuada por meio de materiais concretos. O
objetivo é de que todos os alunos saibam os resultados ao fim
do ano. "A memorização foi muito desqualificada, mas não dá
para raciocinar em tudo. Hoje, é preciso ter um equilíbrio
porque desenvolver a memória também é importante", diz a
diretora pedagógica do colégio, Edimara Lima.
PESADELO
A palavra tabuada vem da Idade Média, quando surgiram
as tábuas com resultados de somas de parcelas iguais. Virou
pesadelo de crianças durante muito tempo, obrigadas a decorar
as multiplicações para não sofrerem punições nas escolas. A
decoreba da tabuada era freqüente no modelo de educação
tradicional, em que primeiro se aprendia o conteúdo, depois se
descobria para o que ele servia.
Especialistas no ensino da matemática hoje dizem que a
memorização dos resultados aumenta a rapidez em cálculos
futuros e em estimativas. "O mais importante atualmente é que
a criança entenda qual a regularidade dos fatos matemáticos,
como por exemplo que a tabuada do 8 é o dobro da do 4", afirma
a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e que
foi consultora do MEC para a área de matemática no Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), Maria Teresa
Soares.
No último exame Pisa, em 2003, cujo foco foi matemática, os
alunos brasileiros amargaram o pior resultado entre os países
avaliados. Segundo Maria Teresa, mesmo aos 15 anos, idade em
que participam do exame, os estudantes ainda não dominaram
conceitos básicos da multiplicação.
O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), feito pelo
MEC no País e que cobra matemática de alunos de 4ª, 8ª série e
3º ano do ensino médio, mostra também resultados insuficientes
dos alunos brasileiros.