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Segunda-feira, 24 abril de 2006   edições anteriores
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  Contra a decoreba, crianças agora aprendem a tabuada

Escolas vêem a importância da memorização, mas que deve vir depois da compreensão

Renata Cafardo

A tabuada continua do mesmo jeito. E as crianças continuam precisando saber quanto é 2x3, 7x8, 9x4. Mas não se usa mais o verbo decorar nas escolas. A educação atual fala em memorizar a tabuada, mas com a condição de que ela seja compreendida antes. Professores inventam todo tipo de jogos, brincadeiras e materiais para fazer os alunos entenderem o conceito da multiplicação e seu uso no cotidiano.

Tudo é contextualizado, como pede o bom e velho construtivismo. O conceito difundido pelo psicólogo Jean Piaget nos anos 20 diz que o conhecimento é um processo de criação e não de repetição. Na década de 90, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), do Ministério da Educação, transformaram boa parte das idéias de Piaget - e de outros educadores que pensavam de maneira semelhante - em recomendações oficiais. Hoje, elas estão na maioria das escolas particulares e públicas.

"Eu não decoro, eu somo", diz Isabela Mendonça Moreira, de 8 anos, ao falar da tabuada. Ela conversou com a reportagem no fim de uma aula de matemática em que os alunos foram divididos em grupos para trabalhar com o chamado material dourado. A caixa de madeira - nada dourada - tem pequenos cubos também de madeira que representam unidades; barras que representam dezenas e quadrados, centenas.

A professora da Escola Carlitos, em Higienópolis, vai pedindo aos alunos que dobrem várias vezes a quantidade de unidades até que possam completar a tabuada do dois. "Virou uma escadinha, com dois quadradinhos a mais a cada degrau", percebe Rafaela Iskin, de 8 anos. No fim da aula, todo mundo canta alto a tabuada.

"A tabuada tem de aparecer como se fosse uma produção das crianças", diz a educadora da Universidade de São Paulo (USP), Silvia Colello. Ela explica que, na educação atual, a tabuada é o fim de um processo e não um pré-requisito para lidar com a matemática. "O aluno vai resolvendo os problemas e, de tanto usar, decora a tabuada. E, com o que sabe, deduz o resto."

No Colégio Santa Maria, na zona sul, que já teve um ensino mais tradicional, hoje as crianças aprendem a tabuada com álbuns de figurinhas. "Cada página tem um número igual de figuras, eles vão percebendo que a tabuada faz parte da vida deles", explica a orientadora da 1ª série, Maria Rita Moraes Stellin.

O Santo Américo, que também não se declara construtivista, ainda tem chamada oral. "Mas não vale nota", diz a supervisora de matemática de 1ª a 4ª série, Priscila Montenegro Siqueira. A cobrança existe, porém a professora também fala em compreensão da tabuada. Ela usa artifícios como barras coloridas, competições entre alunos e recentemente resolveu pendurar, a cada dia, uma placa nela mesma com uma multiplicação diferente. "Os alunos têm de me chamar por 6x8=48, por exemplo. No fim da semana, a maioria já registrou os resultados."

Na Prima Escola Montessori, na Chácara Flora, as crianças mais velhas podem até usar a calculadora, mas também se busca entender da tabuada por meio de materiais concretos. O objetivo é de que todos os alunos saibam os resultados ao fim do ano. "A memorização foi muito desqualificada, mas não dá para raciocinar em tudo. Hoje, é preciso ter um equilíbrio porque desenvolver a memória também é importante", diz a diretora pedagógica do colégio, Edimara Lima.

PESADELO

A palavra tabuada vem da Idade Média, quando surgiram as tábuas com resultados de somas de parcelas iguais. Virou pesadelo de crianças durante muito tempo, obrigadas a decorar as multiplicações para não sofrerem punições nas escolas. A decoreba da tabuada era freqüente no modelo de educação tradicional, em que primeiro se aprendia o conteúdo, depois se descobria para o que ele servia.

Especialistas no ensino da matemática hoje dizem que a memorização dos resultados aumenta a rapidez em cálculos futuros e em estimativas. "O mais importante atualmente é que a criança entenda qual a regularidade dos fatos matemáticos, como por exemplo que a tabuada do 8 é o dobro da do 4", afirma a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e que foi consultora do MEC para a área de matemática no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), Maria Teresa Soares.

No último exame Pisa, em 2003, cujo foco foi matemática, os alunos brasileiros amargaram o pior resultado entre os países avaliados. Segundo Maria Teresa, mesmo aos 15 anos, idade em que participam do exame, os estudantes ainda não dominaram conceitos básicos da multiplicação.

O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), feito pelo MEC no País e que cobra matemática de alunos de 4ª, 8ª série e 3º ano do ensino médio, mostra também resultados insuficientes dos alunos brasileiros.

   



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