Maria Lígia
Pagenotto
As novas
tecnologias de comunicação e informação chegaram
à escola para ficar – ninguém duvida disso –,
seja para o bem ou para o mal. E uma questão se
impõe aos educadores: como a escola irá
redefinir sua função frente a esta nova
realidade?
É cada vez
maior a demanda por educadores preparados para
dominar tecnologias que evoluem a cada dia,
capacitados para desenvolver em seus alunos a
necessária visão crítica diante da velocidade e
do excesso de informações. Estariam eles prontos
para esta tarefa?
A escola e
os educadores, para darem conta dos aparatos
tecnológicos, têm de partir do princípio de que
não podem concorrer com eles. Esta é a opinião
do professor da Escola de Comunicações e Artes
(ECA) da Universidade de São Paulo Adilson
Citelli e de um grupo de pesquisadoras em
tecnologia da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
Segundo
avaliação de Citelli, ao que parece há uma idéia
generalizada de que vivemos numa sociedade com
informação demais. E os educadores não sabem o
que fazer diante dessa realidade. “Não acho que
há excesso de informação. Os dados de que
dispomos hoje – e sempre foi assim – são
compatíveis com um determinado nível de
desenvolvimento de nossa história e de nossa
sociedade”, argumenta. “Eu prefiro, sim,
trabalhar com o conceito de discernimento. Até
onde nós ativamos esses conceitos diante das
informações que recebemos?”
Para ele,
não há de se ter medo da informação oferecida
pelo “excesso” de aparato tecnológico do nosso
tempo – “devemos é ter medo da dificuldade de
discernir a informação de qualidade”, aponta.
Esse discernimento de que fala Citelli se
adquire com educação – por isso entenda-se não
necessariamente apenas a escola formal. Mas ele
ressalta que escola é lugar de produção de
conhecimento que deve passar por esse crivo do
discernimento.
Os
professores, diz Lucila Pesce, docente do curso
de Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-SP e
integrante do grupo de trabalho na área, devem,
necessariamente, se colocar também como usuários
desse aparato tecnológico que tanto os aflige na
relação com o aluno. “Eles têm de fazer uma
transposição didática dessa realidade e com isso
vão necessariamente sair da linearidade para uma
outra construção, em rede, com acesso a várias
fontes de informação, como acontece com os
jovens hoje”, explica.
O medo de
que o aluno apresente uma tarefa totalmente
copiada da internet deve, na visão desses
educadores, ser colocado a favor do professor.
“Esse ato de copiar sempre existiu – se hoje ele
copia de um site, antes copiava da enciclopédia.
O interessante é refletir sobre o que fazer
diante dessa situação. Que tal propor então ao
aluno uma síntese, uma resenha talvez, de tudo o
que ele copiou?”, sugere Lucila.
Culpa da
tecnologia
Para
Adriana Bruno, que junto com Lucila e mais
outras três professoras da PUC-SP – Maristela
Sarmento, Ana Maria Hessel e Maria da Graça da
Silva – faz parte do mesmo grupo de trabalho na
universidade, isso só denuncia uma realidade
presente na escola. “Dentro do processo
histórico, o copiar e colar sempre aconteceu.
Mas hoje leva o professor repensar o que faz na
sala de aula. Ora, um trabalho copiado precisa
de análise crítica, reflexão”, assegura.
O grupo
também oferece formação a professores na área de
educação a distância e Adriana relata que essa
queixa é comum entre os docentes. “Nosso papel é
ajudar professores a perceber essas questões, a
mudança é postural, não é a tecnologia que vai
mudar a atitude do professor na sala de aula.
Aparato tecnológico existe faz tempo, em certa
medida. O maior
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| Ana Hessel, Maria da Graça da
Silva, Lucila Pesce e Adriana Bruno: papel de
ajudar os professores a perceber que a mudança é
de
postura |
envolvimento
dos jovens com isso vem talvez só explicitar uma
realidade”, afirma Adriana. Segundo ela, é comum
as pessoas culparem a tecnologia por uma série
de comportamentos que identificam como sendo
nocivos, ou prejudiciais. “Se nas famílias não
se conversa mais, é culpa da tecnologia. Se o
ambiente de educação a distância é frio, a culpa
é da tecnologia, se o aluno copia e cola da
internet, idem, e por aí vai. Nosso trabalho
pretende mostrar que não é exatamente assim. As
pessoas têm responsabilidade sobre essas
situações.”
Aos
educadores que temem perder sua função por conta
do maior aparato tecnológico nas instituições de
ensino – uma queixa bastante comum, segundo as
professoras da PUC-SP – a professora Ana Maria
Hessel diz que é necessário estimular uma
reflexão sobre o significado da escola. “Ela tem
de rever seus desafios, que é trabalhar o
conhecimento também, não só a informação. Esta é
farta, veloz, e isso se reflete direto nos
nossos alunos. Eles vivem o imediato, estão
envolvidos em um pragmatismo diferente do nosso.
E nós, professores, nos sentimos imobilizados
para atender a essas demandas.”
O
pesquisador Citelli, da USP, lembra que a
tecnologia tem um papel, a escola, outro. “A
internet, por exemplo, não vai sistematizar,
normatizar ou hierarquizar nenhuma informação
para ninguém. Isso é papel da escola”. E, no seu
entender, escola e meios de comunicação e
informação devem e precisam encontrar sintonias
dialógicas. “Este é o ponto”, frisa.
Lucila
Pesce partilha da mesma idéia. Para ela, a
escola tem o papel de fazer o contraponto com a
tecnologia, ou melhor, com o talvez excesso de
aparatos tecnológicos em nosso dia-a-dia, ao
lado de outras instâncias sociais. “O cinema
cult tem sua importância social, em contraponto
à indústria cultural da banalização, da
massificação”, exemplifica. Embora, diga, há
muita gente que não gosta desse tipo de filme –
o que só reforça que ele ocupa um espaço
relevante. A escola, acredita a pesquisadora,
também tem de desempenhar esse papel, para não
ir a reboque da sociedade sem fazer sua
reflexão, sem oferecer uma visão crítica a
respeito desse tema tão presente na vida de
todos.
Maria da
Graça da Silva, também da PUC-SP, observa que o
aluno de hoje, especialmente dos grandes centros
urbanos, é diferente do de 20 anos atrás. E o
diferencial, chama atenção, está justamente na
questão da tecnologia. Esse jovem, diz a
professora, vive no contexto da tecnologia de
qualquer forma – “não só pelo contato com ela,
pois isso nós também temos, mas por conta de sua
leitura de mundo, que é diferente, porque eles,
os jovens, têm vivências diferentes –navegam na
internet, têm celular, estão com o mundo
constantemente conectado, mergulhados nos
videogames, no Orkut. Esse aluno mudou, não
aceita mais passivamente qualquer informação que
o professor ofereça”, afirma. Segundo Maria da
Graça, muitas vezes o professor está fora dessa
realidade, ou não tão inserido como o aluno, e
por isso entram em choque.
“É claro
que não podemos esperar ter hoje um estudante
como aquele do tempo em que a informação
demorava dias para atravessar o Atlântico”,
brinca Citelli. Atualmente, os docentes têm de
saber ainda como lidar com um aluno que é também
autor, e esse é um dado novo importante. Ele
produz fotos, textos e filmes com muito mais
facilidade e rapidez do que outras gerações,
ressalta Maria da Graça.
Mudar é
preciso
Já
Maristela Sarmento, outra professora da PUC-SP,
acha que na verdade quem precisa mudar, mais do
que os docentes, é a própria instituição escola.
“Acho que os professores já mudaram, até porque
eles têm, na sua vida pessoal, convivência com
tudo isso, com todo esse aparato tecnológico no
dia a dia, e não têm como fugir. O que não mudou
é a instituição escola, pois não conseguiu
alterar sua estrutura. Tudo o que entra sobre
tecnologia nas escolas ainda entra
perifericamente”, polemiza.
Na avaliação de Maristela, falta às
escolas incorporar a tecnologia a uma estrutura
curricular e organizativa. “Ela só foi
incorporada nas questões administrativas”,
observa. Do ponto de vista da organização do
currículo, não. “As escolas se organizam com
salas de informática, por exemplo, ou com uma
área que toma conta da ‘tecnologia’ e da
informática. Mas isso não está em sua estrutura.
Diante de um aluno que estabelece com o mundo
fortes relações virtuais, a escola precisa
avaliar como isso impacta o próprio desenho de
seu currículo”, pondera.
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| Zélia Cavalcanti: cabe aos
professores entender esse mundo de novas
tecnologias e tomálo a seu
favor |
Lucila
vai um pouco além e discute o conceito de
inclusão digital. De acordo com ela, é
importante estar alerta para não banalizar o seu
sentido. “O professor não tem de procurar, para
agradar ao aluno, fazer da aula um espetáculo
tecnológico e só oferecer textos curtos, pois
essa é a linguagem da internet e ele não se
interessa por outra. Ora, nem todo aprendizado
tem de passar necessariamente pelo prazer e o
jovem estudante tem de estar consciente disso”,
avisa.
No seu
entender, é importante repensar também a que
preço se promove essa inclusão digital, o que
isso significa. “Se não fizermos isso, corremos
o risco de criar uma sociedade de
‘infoalienados’”, provoca.
E chama
para algumas reflexões que considera
fundamentais: “Qual o sentido da proficiência
tecnológica? E em termos de consistência
crítica, o que fazer com todo esse acesso à
informação? Como mobilizo todos esses saberes
para me construir cada vez mais enquanto
cidadão?” Ela ressalta que não necessariamente a
inclusão digital pura e simples contempla todos
esses aspectos.
Para
que não “briguem” entre si, educação e
tecnologia, ao que parece, têm de caminhar
juntas. Não se trata de fazer da tecnologia,
como insistem algumas instituições de ensino,
segundo os especialistas, um apêndice. “Nós
temos hoje computadores em boa parte das escolas
e professores capacitados para entender e pensar
a tecnologia. Agora, é importante, para que tudo
isso se articule, que a gente tenha políticas
que institucionalizem essa incorporação da
tecnologia no dia-a-dia da escola, caminhando
junto”, afirma Maria da Graça.
Mas as
pesquisadoras estão longe de ver a situação com
pessimismo. Nas escolas que atendem, para
formação de professores, afirmam elas, as
mudanças já começam a ser sentidas. “Acho que as
instituições de ensino passaram por uma crise
por conta desse aparato tecnológico, da
concorrência que isso significava para elas,
entre outras questões”, diz
Adriana.
Atualmente, prossegue, é possível
perceber que existem movimentos no sentido de
buscar um outro significado para a escola. “Acho
que os cursos oferecidos aos professores estão
caminhando nessa direção. Claro que é um
trabalho que leva muito tempo, mas há
progressos, como a própria visão do professor da
escola em relação à tecnologia, que está
avançado”, afirma. Para Adriana, ainda não
vivemos uma situação ideal, mas o debate foi
lançado.
Instrumento de
trabalho
Em São
Paulo, Zélia Cavalcanti, diretora do Centro de
Estudos da Escola da Vila (CEEV), que capacita
professores das redes pública e privada de
escolas de todo o Brasil, afirma: “Na Escola da
Vila a informática é hoje uma aliada,
instrumento de trabalho para professores e
alunos, usado como local de pesquisa e de
publicação de trabalhos. Isso foi possível a
partir do momento em que integramos o mundo
digital ao cotidiano da escola, tornando-o
disponível através da construção de um espaço
virtual (o domínio Vila), que oferece e-mail a
todos os funcionários e espaços de armazenamento
e publicação de documentos para a equipe
pedagógica”.
Este é um
dos aspectos da questão. Mas como reage o
professor diante dessa proposta da escola?
“Hoje, entre nós, a utilização do espaço virtual
para o trabalho em equipe é um fato, não é uma
escolha. Nosso professor tem de se integrar a
essa realidade, que é também a realidade do
aluno e para a qual ele precisa ser educado. O
que fazemos, tanto internamente quanto nas
atividades realizadas pelo CEEV, é procurar
formas de incentivar os professores a se abrirem
para a tecnologia digital, usar a internet, seja
buscando informações úteis ao desenvolvimento
profissional, seja participando de atividades
on-line, entre outras formas possíveis. Por
exemplo, todos os comunicados da escola e do
CEEV para os professores chegam por e-mail”,
informa Zélia.
Mas ela
observa que ainda há resistência dos professores
em geral, embora não consciente. “Acho que os
professores resistem porque não se dedicam a
aprender a usar essa ferramenta tão potente de
comunicação. Talvez seja uma manifestação de
resistência à mudança da cultura profissional.”
A diretora cita também a comunidade de
aprendizagem do CEEV, que tem um site com uma
área de textos e de trocas de experiência. “É
sintomático termos um fórum e poucos se animarem
a participar.”
O fato é que as visões
diferentes de mundo entre professores e alunos
criam um certo distanciamento que cabe ao
educador superar. Para Zélia, um dos graves
problemas desse mundo virtual é a dificuldade
dos jovens de perceber os limites entre o
público e o privado. “Estes limites quase passam
a não existir. Trabalhamos com os professores
para que realizem ações no sentido de mostrar
aos alunos que os limites devem existir e são
necessários.” E algumas dessas ações já se fazem
sentir.